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  • Se não dormir, não dirija

    1-05-2008 ás 03:36:30

    O gravamento (sic) do episódio 15 do Podcast tinha acabado de ocorrer. Eu, Aguinelo e o Júlio (Saint) tinhamos ido a uma lanchonete logo do lado da LanHouse onde fizemos a gravação com transmissão ao vivo para toda a interwebs, onde nos deliciamos com uma bela pizza meia frango-catupiry e meia portuguesa além de duas cervejas á temperatura ambiente (ou seja, geladas). Depois, partimos cada um em uma direção. Fui andando pela Rua XV (uma rua somente para pedestres aqui em Curitiba) para chegar ao terminal de onde pego ônibus. Como o frio estava de lascar, apressei o passo para me esquentar, afinal de contas não estava preparado para tal temperatura (não depois de uma semana de sol seguido de um dia de chuva torrencial). Foi aí que, ao atravessar uma das ruas que cortam essa Rua XV, aconteceu.
    Quem me conhece há tempos sabe o quão cuidadoso sou em relação a trânsito: nunca dirijo alcoolizado, espero o sinal abrir tanto quanto dirigindo quanto a pé e sempre olho dos dois lados da rua mesmo se for uma via única (nunca se sabe se algum louco vai estar dirigindo na contra-mão). Hoje não foi nada diferente: vi que o sinal estava aberto para os pedestres, olhei para os dois lados (era uma via de mão única) e comecei a atravessar. Eu tinha notado aquele carro preto vindo, mas quem mora em Curitiba sabe que mesmo se o sinal estivesse fechado para pedestres, ao cortar a Rua XV é necessário muito cuidado pois curitibano não parece ter muito amor à vida. Na metade da travessia ouço o barulho inconfundível de uma freiada; e o barulho parecia estar vindo na minha direção. Olhei para a direita. Dentre os mil pensamentos seguintes, o primeiro foi um sentido “fodeu”.
    Quando falam sobre sua vida inteira passar diante de seus olhos em milésimos de segundos, estas pessoas não mentem. Pois neste momento, foi o que aconteceu: pensei “poxa vida, vou morrer justo hoje, a dois dias de completar 23 anos”, logo agora que profissionalmente eu estava crescendo: o Digital Paper pegando velocidade, o Podcast ganhando notoriedade, um emprego bom que está me dando a possibilidade de crescer e projetos laterais que prometem consolidar um nome na web (a vida pessoal lógicamente está indo água abaixo afinal não se pode ter tudo), um ano e meio faltando para terminar a faculdade que tanto demorei pra começar, o ano em que eu ía conhecer uma super-amiga de longa data de camboriú, em que eu ía conhecer duas garotas divertidas de São Paulo, o ano em que eu iria mudar pra fora de casa, justo agora que virei padrinho de uma garotinha tão fofa, meu deus…tanta coisa!
    Tudo isto em nem sequer um segundo inteiro, talvez nem meio-segundo. Foi aí que o instinto básico de um ser-humano bateu: a necessidade de sobreviver. Sei que não pensei isto na hora (pelo menos não do jeito que vou contar), mas demora aproximadamente 0,3 segundos para dar um embalo inicial de uma corrida e talvez mais uns 0,7 segundos para dar passos o suficiente para desviar de um carro vindo em sua direção (viva o Discovery Channel). Demoraria exatamente um segundo para sair da frente do motorista aparentemente cego - afinal de contas, não sou baixinho e meu moletom é um azul que chamaria a atenção de um motorista normal. Óbviamente como a teoria é algo totalmente diferente da prática, meu corpo permaneceu imóvel: não ía pra frente. Talvez eu não tenha nem tentado e já pulado para a próxima opção: pular.
    Quando eu fazia Le Parkour algum tempo atrás, consegui efetuar alguns pulos razoáveis partindo de uma posição estática e pulando verticalmente. Infelizmente, faz mêses que nem sequer tenha corrido por 20 metros. E como todos sabem, a primeira coisa que um carro médio acerta quando vêm em direção a uma pessoa são suas pernas, o que faz a pessoa cair de corpo no capô do carro e eventualmente fazendo-a atravessar o pára-brisa do carro…de cabeça.
    Ao pular, evitava dois problemas de uma vez só: salvava minhas pernas de serem quebradas e diminuía o risco de eu entrar no carro do motorista de cabeça pelo pára-brisa (o que podia me resultar em um leve caso de morte). No máximo, iria cair em cima do capô do cidadão, daria de lado com o pára-brisa e na pior das hipóteses passaria voando por cima do carro.
    Como eu estava utilizando uma mala de alça atravessando o peito e com alguns artefatos razoavelmente pesados nele, não consegui ganhar muita altitude, fato que poderia se tornar um inconveniente (quer queiram, quer não, morrer é um inconveniente muito grande para todos). Ao estar suspenso no ar, minha sorte (se é que podemos chamá-la disto) mudou: o carro tinha conseguido freiar. Bem debaixo de mim.
    Resultado: acabei meio que pulando para escapar do carro e acabei “sentando” no capô do carro e instantaneamente deslizei para a frente do carro, onde me desequilibrei por um momento mas consegui ficar de pé. A cena teria sido cômica se não fosse trágica.
    O motorista abaixou a janela e sem cerimônia, gritou:
    “Seu filho da puta, tá querendo se matar, caralho?”.
    Sem acreditar nos meus ouvidos (ou na sorte de ter sobrevivido apenas com uma dor na coxa direita que viria a se revelar meia-hora mais tarde quando me acalmei), olhei para ele e respondi:
    “Seu viado! Você não viu que o sinal tava fechado??” e apontei para o semáforo de pedestres, indicando que o “sinal fechado” neste caso era o do motorista, não o de pedestres.
    O cidadão olhou para o sinal onde o ícone de pedestre verde andando estava iluminado e olhou novamente para mim com um olhar de descrença. Ele abriu a porta e saiu do carro.
    Eu, que não sou bicho burro, coloquei a mão dentro do bolso para retirar o soco-inglês que carrego de proteção contra motoristas homicidas e pessoas insanas em geral. Mas em vez de partir para cima de mim, o homem quase sussurou:
    “Você está bem?”. Claramente ele estava imaginando que a tentativa de atropelamento dele iria resultar em 6 anos de cadeia, pois esse tipo de expressão só aparece nos rostos de condenados. Em seguida, o motorista (um jovem de uns 25 anos) desabou em lágrimas e despejou seus problemas em mim:
    “Cara, faz três dias que não durmo. Minha esposa deu luz a gêmeos. Eu estou trabalhando direto, sem parar para poder sustentar a gente. Eu não durmo faz três dias. O que vai acontecer comigo, cara? Por favor cara, pense nos meus dois filhos cara!”.
    Pensei em questioná-lo sobre onde os problemas dele se encaixam nos meus, afinal de contas existem dois problemas no mundo: os meus e os seus. Não deixe que os seus se tornem os meus.
    O cara estava desesperado e eu estava em estado de choque. Só consegui falar:
    “Dá próxima vez, se não dormir, não dirija” e voltei a andar sem acreditar no que tinha acabado de acontecer.
    Ah sim, saí sem muitos machucados: apenas uma perna dolorida resultado do jeito que caí no carro.

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